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02/07/2011
Expedição Halfeld: marco da defesa do patrimônio do Velho Chico

Américo Antunes

 

Há dez anos, Pirapora foi o palco do lançamento de um movimento pelo reconhecimento como Patrimônio Mundial de acervos históricos, culturais e naturais localizados às margens do rio São Francisco. O movimento, que teve o mérito de inserir a revitalização como premissa para o uso das águas do Velho Chico, seria desdobrado em outubro de 2001 em um inédito projeto de pesquisa que teve como desafio identificar e documentar, em trabalho de campo na calha do rio, patrimônios de Valor Universal Excepcional – requisito da UNESCO para a inscrição de bens na Lista do Patrimônio Mundial.

Batizada de Engenheiro Halfeld, em homenagem ao engenheiro que realizou os primeiros estudos, “légua a légua”, do rio entre 1850 e 1852, uma expedição multidisciplinar foi idealizada para executar a pesquisa e, ao mesmo tempo, mobilizar a opinião pública em torno da preservação do patrimônio cultural e natural do Velho Chico. Na primeira fase, a expedição percorreu 2,3 mil quilômetros do rio entre 14 de outubro e 18 de novembro de 2001, a maior parte por via fluvial, desde Pirapora até a foz em Piaçabuçu, Alagoas. Na segunda, o trabalho foi realizado entre 28 de junho e 11 de julho do ano seguinte, das nascentes na Serra da Canastra, em São Roque de Minas, até Pirapora.

Nesta jornada, a expedição contou com as mais modernas tecnologias, então desconhecidas no Brasil. Os pesquisadores e jornalistas usaram aparelhos GPS e sistemas de localização via satélite para documentar os bens mapeados e tiveram à disposição câmaras de vídeo e máquinas fotográficas digitais, novidades em 2001. As embarcações contavam com salas de redação, equipadas com notebooks e sistema de telefonia via satélite. E isso permitiu não só que Diários de Bordo fossem enviados para os jornais – liderados pelo Hoje em Dia – que reportavam a expedição aos leitores, como possibilitou a atualização on line do site na Internet, de dentro dos barcos.

O trabalho de campo da Expedição Halfeld mostrou que o São Francisco guarda as raízes da nossa identidade cultural. Avistado por Américo Vespúcio em quatro de outubro de 1501 - quando foi batizado com o nome do santo do dia, São Francisco -, o rio, que sempre guiou os povos indígenas, foi também rota da ocupação colonial a partir daquele século, com a fundação de uma feitoria em Penedo, que legou o nome à bela cidade alagoana, e a autorização da Coroa para a criação das primeiras fazendas de gado.

Outras correntes colonizadoras alcançaram os sertões do São Francisco a partir da virada do século XVI, seguindo os rios que deságuam no Recôncavo Baiano, como o Paraguaçu, e também legaram um notável patrimônio cultural. Matias Cardoso preserva um dos mais antigos templos religiosos de Minas, a Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Já Bom Jesus da Lapa, na Bahia, é palco de romarias ao santuário criado por um eremita em uma gruta há mais de 300 anos.   

Pelo sul, a marcha das bandeiras paulistas de escravização de índios e em busca de ouro e pedras preciosas dariam, no século XVIII, os contornos da ocupação do vale do São Francisco, consolidada com a descoberta de minas próximas às nascentes do rio das Velhas, seu maior afluente. Com as riquezas minerais, emergiria uma extensa rede de vilas, como Ouro Preto e Sabará. E assim o rio, além de cumprir a milenar vocação de provimento humano, por meio do qual chegavam às vilas o peixe, o sal, a carne seca e o gado, entrelaçaria o Sudeste ao Nordeste e ao Centro-oeste, as civilizações do ouro à dos currais, forjando o Brasil que conhecemos.

Apesar da poluição, do impacto das hidroelétricas e do assoreamento, o caminho das águas do Velho Chico mostra ainda hoje a exuberância de paisagens históricas, arqueológicas e naturais que resistem à ação do homem. E a boa notícia, em 2011, é que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Iphan arregaçou as mangas e já conclamou estados, municípios, empresas e sociedade a pactuarem ações urgentes de proteção e preservação do patrimônio do São Francisco.

 

Artigo publicado no jornal Hoje em Dia em dois de julho de 2011.