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Américo Antunes
Os caminhos Novo, Velho e dos Diamantes da Estrada Real no
centro-sul do país mantêm originais os traçados do século XVIII, quando foram
abertos no auge da corrida do ouro e das pedras preciosas. A autenticidade das
rotas foi comprovada através do geoprocessamento de um mapa da Capitania de
Minas Gerais, de 1778, elaborado pelo engenheiro militar português José Joaquim
da Rocha, e da pesquisa em campo das coordenadas geográficas dos remanescentes
dos antigos caminhos. Ambos os estudos, realizados pelo Instituto Estrada Real,
fundamentam a solicitação de reconhecimento da Estrada Real como Paisagem
Cultural do Brasil e da Humanidade, encaminhada ao IPHAN durante o Seminário
Nacional Rotas Culturais e Caminhos Históricos.
Embora grande parte dos antigos caminhos tenha dado lugar
às ferrovias e rodovias atuais, a pesquisa cartográfica e em campo, executada
sob responsabilidade do geógrafo Glauco Umbelino, identificou cerca de 50
quilômetros de calçamentos antigos em pedra, pontes, sistemas de drenagem de
água e muros de contenção, localizados em áreas íngremes, na travessia de
serras. Entre estes remanescentes foram selecionados 12 trechos preservados para
fundamentar o pedido de reconhecimento da Paisagem Cultural da Estrada Real. E a
maioria deles está situada em unidades de conservação ambiental, como o Caminho
do Ouro, no Parque Serra da Bocaina, em Paraty, os Caminhos dos Escravos, nos
Parques da Serra do Cipó e do Biribiri, em Diamantina, e as Trilhas do Carteiro
e do Mangue, na Serra de São José, em Tiradentes, entre outros.
Além do mapeamento dos remanescentes, as pesquisas
revelaram um outro dado significativo. No território de abrangência da Estrada
Real, que é de 77.724 quilômetros quadrados em
mais de 170 municípios mineiros, cariocas e paulistas, nada menos do que 7,85% da área estão protegidas em unidades de
conservação integral – estações ecológicas, reservas biológicas, parques, monumentos naturais e refúgios de vida silvestre –, enquanto que no Brasil, segundo levantamentos da WWF, de 2005, este percentual é de apenas 1,85%. Se considerado também as unidades de uso sustentável – áreas de proteção ambiental e de relevante interesse ecológico, reservas da fauna e de desenvolvimento sustentável, e reservas particulares do patrimônio natural –, o inédito estudo
mostra que o índice de proteção na Estrada Real sobe para
17%, contra 8,49% no Brasil, conforme dados do
Ministério do Meio Ambiente, de 2004.
Representativas de ecossistemas únicos no mundo, como a
Mata Atlântica, o Cerrado e os Campos Rupestres, estas unidades de conservação integram hoje duas reservas da biosfera do Programa MAB – O Homem e a Biosfera, da UNESCO. A primeira delas, a da Mata Atlântica, foi criada em 1992, e a segunda, da Serra do Espinhaço, em 2005.
Patrimônio histórico
As cidades históricas situadas ao longo da Estrada Real são
conhecidas no país e no mundo por preservar um dos maiores patrimônios tombados
do barroco brasileiro. Entretanto, a associação deste enorme acervo em uma
perspectiva histórica e geográfica, como requer o conceito das paisagens
culturais, traz novas revelações sobre a riqueza e a extensão do patrimônio
cultural da Estrada Real. Em seus 1.793 quilômetros, as três rotas formam um
verdadeiro museu aberto, resguardado em oito conjuntos urbanos e paisagísticos e
193 propriedades coloniais tombadas pelo IPHAN em 35 municípios. Também
relacionados com o século XVIII e com proteção estadual, há 60 outros bens
tombados na Estrada Real, enquanto que os tombamentos municipais englobam cerca
de 450 propriedades em mais de 70 cidades.
Embora a inscrição nos livros de tombamento federal,
estadual ou municipal nem sempre seja sinônimo de preservação de um bem
cultural, a autenticidade e a integridade destes acervos ao longo da Estrada
Real são elevadas. Prova disso é que Ouro Preto tornou-se a primeira cidade
histórica brasileira inscrita na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO em 1980,
seguindo-se, em 1985, o reconhecimento do Santuário do Bom Jesus do Matozinhos,
em Congonhas, e depois o do centro histórico de Diamantina, em dezembro de 1999.
Assim, em maior ou menor grau de integridade, a evidência do “valor excepcional
e universal” destes bens - e que os levou a conquistar a inscrição na seleta
lista dos patrimônios culturais da Humanidade - está presente também em outras
antigas vilas coloniais, como em Paraty, São João Del Rei, Tiradentes, Serro e
Mariana, entre outras.
Portanto, a associação deste enorme e diversificado
conjunto de bens, culturais e naturais, mostra que a Estrada Real nada mais é do
que um produto resultante da relação do homem com a natureza. Seus caminhos
foram forjados na busca das imensas riquezas minerais do interior do Brasil e
propiciaram um intenso intercâmbio de valores humanos, sobre os quais
floresceram as vilas coloniais e uma cultura singular, testemunhas vivas da
opulência de uma época.
Por sua vez, os levantamentos cartográficos e os
remanescentes encontrados na pesquisa de campo provaram que os antigos traçados
permanecem semelhantes 300 anos depois, sendo elevada também a integridade do
patrimônio natural e histórico protegido no território da Estrada Real. E estas
são as características essenciais que asseguram à Estrada Real a condição de uma
paisagem cultural única, cuja proteção e preservação para as gerações futuras
deve ser de interesse do Brasil e de todo o mundo.
A dimensão dos caminhos do ouro e dos diamantes
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Área da Estrada Real |
77.724 Km² |
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Unidades de Conservação Ambiental |
107 |
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Percentual da área protegida |
17% |
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Extensão das rotas |
1.793 |
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Remanescentes da Estrada Real |
29 |
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Extensão dos remanescentes |
50,5 Km |
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Municípios com bens tombados/IPHAN |
35 |
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Conjuntos urbanos tombados/IPHAN |
8 |
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Propriedades tombadas/IPHAN |
193 |
Artigo publicado na revista especial do HOJE EM DIA, de setembro de 2007, comemorativa dos 10 Anos da campanha Diamantina Patrimônio Mundial
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