Caminho do São Francisco





HISTÓRICO

Uma imensidão de águas

Quatro de outubro de 1501. O navegador italiano Américo Vespúcio, numa expedição de reconhecimento pela costa brasileira, avista no Oceano Atlântico a foz de um caudaloso rio e o batiza com o nome de São Francisco, em homenagem ao santo do dia.

Antes, porém, que os europeus “descobrissem” o rio, índios que há mais de nove mil anos já desvendavam sua imensidão chamavam aquelas águas de Opará, que na linguagem dos nativos significa “rio-mar”.

Ao longo de mais de 500 anos, o Rio São Francisco ganhou outros tantos nomes e apelidos. Virou o Rio dos Currais, quando o gado se disseminou em suas margens; e Rio da Integração Nacional, por ligar o Sudeste ao Nordeste do país, abrindo caminho pelo sertão. Do carinho dos ribeirinhos e da generosidade do rio, que durante séculos presenteou o homem com peixes, água e vida, nasceu ainda o apelido de “Velho Chico”, que traz consigo também toda a atmosfera de sofrimento e degradação do rio.

INFORMAÇÕES GEOGRÁFICAS

Maior rio brasileiro entre aqueles integralmente localizados em terras nacionais, o São Francisco nasce na Serra da Canastra, no Sudoeste de Minas Gerais, em um local conhecido por Chapadão da Zagaia, na cidade de São Roque de Minas. A mil metros de altura, estão os primeiros olhos d’água, que, ainda meninos, seguem brincando e crescendo por 14 quilômetros, até despencar de uma altura de 186 metros, em sua primeira cachoeira, a Casca d’Anta.

Depois de um trecho inicial de corredeiras e caminhos acidentados, o Velho Chico chega a Pirapora, onde começa sua parte navegável, que se estende até Juazeiro (BA) e Petrolina (PE). A partir daí, cachoeiras e um extenso cânion interrompem, novamente, a passagem das embarcações, que só podem voltar às águas em Piranhas (AL), seguindo até a foz, entre Sergipe e Alagoas, nas proximidades do município alagoano de Piaçabuçu. Da Canastra, o Velho Chico percorre 2,7 mil quilômetros até o Oceano Atlântico, com um trecho navegável de 1,5 mil quilômetros.

Em suas andanças, ele banha 504 municípios de Minas, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas, estados que, junto com Goiás e o Distrito Federal, formam a Bacia Hidrográfica do São Francisco, com área de drenagem de 639.219 quilômetros quadrados ou 7,5% do país. Trata-se da terceira maior bacia do país e a única totalmente brasileira. Dessa área total, 36,8% estão em Minas Gerais, 62,5% nos estados nordestinos e somente 0,7% em Goiás e Distrito Federal. A Bahia é a unidade da federação que possui maior área compreendida no vale do rio. Em toda a bacia, vivem cerca de 16 milhões de pessoas, que correspondem a 9,5 % da população brasileira.

Ao longo de sua viagem, o São Francisco é alimentado por 36 afluentes significativos, sendo 19 perenes, entre eles os rios Paraopeba, Velhas, Paracatu, o Rio Verde Grande, o Carinhanha e o Corrente. Cerca de 70% das nascentes que abastecem o São Francisco estão em Minas. Além disso, cinco usinas interrompem o fluxo das águas, sendo elas: Três Marias (MG), Sobradinho, Itaparica e Paulo Afonso (BA) e a Usina de Xingó (AL).

MANIFESTAÇÕES CULTURAIS

Quem viaja pelo São Francisco se encanta ainda com suas belezas naturais e com a arte do povo ribeirinho, expressa em música, dança, cordéis, esculturas, cerâmica e numa infinidade de objetos. O rio banha diferentes vegetações, tem fauna rica e variada, abriga parques e constrói cenários indescritíveis, com águas ora verdes, ora azuis, límpidas ou barrentas, cercando ilhas ou comprimidas por formações rochosas. Antigos habitantes dessas paragens deixaram ali, pintadas, moldadas ou talhadas, suas histórias, seu cotidiano, sua crença.

Paredões com pinturas rupestres de milhares de anos, além de urnas, cerâmica e coleções líticas, estão preservadas em cidades ribeirinhas, sobretudo em Canindé do São Francisco (SE), cidade sede do Museu Arqueológico de Xingó, que abriga milhares de peças. O artesanato é outra riqueza do Vale do São Francisco, desde a cerâmica das mulheres do Candeal, nas proximidades de Januária (MG), passando pelo bordados em estilo rendendê de Entremontes (Piranhas/AL) e pelo Boa Noite, bordado exclusivo das artesãs da Ilha do Ferro, em Pão de Açúcar (AL).

Em Barra (BA), o artesão José Geraldo, o Gerar, modela santos católicos e orixás em uma mesma peça de barro, dando formas ao misticismo religioso presente em todo o país. Ali também ele ensina sua arte a crianças e adolescentes em situação de risco. Já em Petrolina (PE), na oficina do Artesão Mestre Quincas, artigos em madeira, couro, cerâmica e tecido são comercializados. Para encher os olhos do visitante, há peças da artesã Ana das Carrancas e imagens do artesão Roque Gomes da Rocha, o Roque Santeiro.

O chamado patrimônio imaterial também é de extrema variedade e riqueza ao longo de todo o Vale do São Francisco. Benzedores perpetuam um tempo de poucos recursos médicos; festas folclóricas, antigas cantorias, manifestações de cunho religioso, causos e lendas povoam o imaginário coletivo dos ribeirinhos e sobrevivem a novas gerações. Cada ruína também tem histórias de fuga, proteção a escravos e milagres, contadas ao som de várias bandas de pífaros. Uma riqueza que vale todo o esforço pela preservação.

Na localidade de Brejo do Amparo, no município mineiro de Januária, a luta entre mouros e cristãos é revivida a cada ano durante a cavalhada, festa que dura três dias. Em Paratinga (BA), o espetáculo folclórico surpreende, com destaque para a Folia de Reis do Boi, parte da festa de Santos Reis, celebrada também em outras partes do país, no mês de janeiro. E em Curaçá, ainda na Bahia, a tradição dos vaqueiros é preservada até mesmo em cerimônias como o casamento, onde a noiva se veste de gibão, perneira e guarda-peito de couro para dizer o sim. Na cidade, que conta com a Sociedade dos Vaqueiros de Curaçá, esse profissional típico do sertão nordestino é considerado um herói.

O RIO DA DIVERSIDADES

Chamado carinhosamente de Velho Chico pelas populações ribeirinhas, o São Francisco foi de fundamental importância no processo de ocupação do interior do Brasil e guarda ainda em suas paisagens, nas edificações históricas erguidas em seu vale e nas manifestações do povo “beradeiro” a memória da formação da cultura brasileira.

Desde sua descoberta, o Rio São Francisco ajudou a determinar a história brasileira. Palco da aventura bandeirante, na frenética busca por pedras e metais preciosos, ele presenciou o surgimento de inúmeros núcleos urbanos ao longo de sua calha e revelou ainda um caminho natural para que o desenvolvimento chegasse aos confins do país. Pela mesma trilha de águas, a carne oriunda dos muitos currais ribeirinhos, além de outros suprimentos, abasteciam a zona mineradora, impondo-se o rio como rota mercantil.

A partir de sua foz, estabeleceu-se um novo caminho, dessa vez para as missões religiosas que dominariam os índios e influenciariam para sempre os hábitos, a fé, a cultura e a história do povo ribeirinho. Nesses mais de 500 anos, o rio levou riqueza e vida às cidades e aos barranqueiros. Por ele passaram e ainda passam embarcações com passageiros e mercadorias, como na época em que o Velho Chico ligava os centros mineradores, as fazendas de gado e o porto de Salvador; como nos saudosos tempos dos vapores.

Apesar da degradação em vários trechos, o São Francisco corre perene no sertão nordestino, permitindo o cultivo de frutas, a pesca, a agricultura e a pecuária. E todo o país se beneficia da riqueza de sua força, domada e transformada em energia elétrica. Rio intimamente ligado à alma do ribeirinho, o Velho Chico alimenta ainda a cultura e o folclore de todo um povo, amedrontado por seus caboclos d’água, mas sem nunca perder a alegria, a espontaneidade e a vida, características do próprio rio.

OCUPAÇÃO

“... o São Francisco foi, nas altas cabeceiras, a sede essencial da agitação mineira; no curso inferior, o teatro das missões; e, na região média, a terra clássica do regimen pastoril, único compatível com a situação econômica e social da colônia. Bateram-lhe por igual as margens o bandeirante, o jesuíta e o vaqueiro.” (Euclides da Cunha, Os Sertões)

Nessa espécie de divisão do Vale do São Francisco quanto à sua importância histórica, o escritor Euclides da Cunha faz referência ao processo de ocupação e expansão de núcleos urbanos da porção inicial do rio, determinado pela presença dos bandeirantes e aventureiros à procura das riquezas minerais. Ainda hoje, várias cidades ribeirinhas guardam preciosos vestígios da aventura bandeirante. Além da rota terrestre, exploradores utilizavam ainda, a partir da cidade mineira de Sabará, a calha de seu maior afluente, o Rio das Velhas, para atingir o Velho Chico, na região onde hoje está situada a cidade de Várzea da Palma, também localizada em Minas Gerais.

Seguindo de Pirapora (MG) a Juazeiro (BA), os antigos navegadores se deparavam com intensa atividade pecuária às margens do São Francisco, o que lhe valeu a denominação de “Rio dos Currais”. Essa atividade garantia o abastecimento de carne bovina para os núcleos mineradores. Também no trecho médio do rio estabeleceu-se, no final do século XVII e primeira metade do século XVIII, a via de ligação mercantil entre as vilas do ouro e do diamante, as fazendas de gado da região e o porto de Salvador.

Finalmente, o trecho inferior do rio foi palco de ação de missionários católicos, cujo legado ainda hoje é visível nos conventos e antigas igrejas, e sentido na fé do povo ribeirinho. No processo de ocupação, os colonizadores enveredaram pelo interior do país, a partir da foz, “catequizando” os índios, que também se transformaram em mão-de-obra para a construção das missões. Em todo seu trajeto, o São Francisco acabou funcionando com uma via de desenvolvimento para o Brasil, ligando as regiões Sudeste e Nordeste, o que lhe rendeu o título de Rio da Integração Nacional.

OS VAPORES

Cortando as águas do rio, as chamadas gaiolas levavam passageiros e mercadorias de um canto a outro, promovendo a mistura de povos, hábitos, sotaques e cultura e incrementando o comércio ao longo da calha do rio. Até os anos 60, os vapores cruzavam o São Francisco. Carrancas na proa a proteger tripulação e passageiros de toda sorte de perigos reais ou criados pela mente dos pescadores e navegadores. Porém, quase todos sucumbiram à chegada da rodovia. A primeira gaiola a navegar o Velho Chico, o Saldanha Marinho, repousa hoje em Juazeiro, abrigando uma pizzaria. E a mais querida embarcação da porção mineira, o vapor Benjamim Guimarães, prepara-se para voltar a navegar, depois de anos ancorado em Pirapora, servindo de abrigo para pássaros e de recordação melancólica para os moradores.

IRRIGAÇÃO

Mas a importância do rio não se limita ao processo de ocupação e formação do país. Em vários trechos do sertão nordestino, o São Francisco é o único rio perene, venerado e cultuado pelo sertanejo, justamente por permitir a vida em terras tão secas. Dados da Agência Nacional das Águas (ANA) dão conta de pelo menos 330 mil hectares irrigados no Vale do São Francisco, o que corresponde a 11% das irrigações do país. Do total, algo em torno de 103 mil hectares são de irrigações chamadas públicas, com projetos governamentais, sendo 44 mil ha destinados à fruticultura, segundo estimativa da Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco (Codevasf).

A cada ano, a receita das áreas irrigadas no vale chega a R$ 1 bilhão. Nos últimos anos, a área ocupada por frutas cresceu 14 mil hectares por ano, em média, segundo revelou o Censo Frutícola do Nordeste – que abrange também o norte de Minas e do Espírito Santo – realizado pela Codevasf, em 2001.

Além de gerar empregos, os projetos de irrigação trazem divisas para a região. Nos 11 primeiros meses de 2003, somente o pólo produtor de Petrolina (PE) e Juazeiro (BA), no submédio São Francisco, exportou 119.942 toneladas de manga, gerando US$ 67,45 milhões, e 35.856 toneladas de uva, com receita de US$ 57,5 milhões. O volume de frutas produzido ali anualmente chega a 350 mil toneladas e a região responde por 90% das exportações brasileiras de manga. Os principais destinos são Europa e Estados Unidos.

A uva fina de mesa produzida no vale também está ganhando o mundo, com 95% das exportações saindo do pólo Petrolina/Juazeiro. A cidade mineira de Pirapora tem também uma produção expressiva de uva, banana e manga, em áreas irrigadas pelo Projeto Pirapora de irrigação, implantado com recursos públicos.

Na região pernambucana de Santa Maria da Boa Vista, visitada pela Expedição Engenheiro Halfeld em novembro de 2001, pelo menos oito empresas já produzem vinho com marca própria, para o mercado interno e também para exportação. E o pólo vem ganhando estrutura para se transformar em uma rota do vinho, como existe hoje no Sul do Brasil. O diferencial seria a proximidade com as capitais nordestinas - todas elas localizadas em um raio de 700 quilômetros - e ainda a possibilidade de se ter vinho jovem com freqüência maior do que na Europa, já que o clima quente do sertão possibilita até três safras de uva por ano.

Apesar do destaque para a produção de manga e uva, a banana encabeça a lista de frutas com maior área plantada no Vale do São Francisco. São 31 mil hectares, sendo 14 mil só no Norte de Minas, conforme apurou o Censo da Codevasf. A exportação da fruta, porém, ainda está em fase embrionária. Pela ordem de grandeza das áreas plantadas, o vale produz ainda manga, coco, goiaba, uva, pinha, laranja, limão, mamão, maracujá, tangerina e acerola.

PISCICULTURA

Enquanto a pesca acabou sendo reduzida pelas barragens e pelo assoreamento e poluição, a criação de peixes em tanques também está gerando renda e emprego para populações ribeirinhas. Em Paulo Afonso, por exemplo, 208 tanques são usados para a criação de tilápias, voltadas para o mercado interno e também à exportação para os Estados Unidos. No mesmo complexo funciona um frigorífico para o processamento das tilápias. O projeto, uma parceria entre a empresa brasileira Montagens Projetos Especiais e um sócio norte-americano com apoio da Universidade do Arizona, prevê a implantação de um total de 1.200 tanques.

ENERGIA

Riquezas brotam ainda do leito e das águas do rio. O São Francisco tem grande potencial mineral, com jazidas importantes de minério de ferro, pedras ornamentais e gemas preciosas. Além disso, o vale desponta com quase 16% de todo o potencial hidrelétrico instalado no país, o que representa 10.372 megawatts (MW), segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). O potencial total do São Francisco, porém, supera 26 mil MW, indicam dados conjuntos da Eletrobrás e da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig). A Usina de Três Marias, a única na porção mineira da bacia, entrou em operação em 1962, tem potência de 396 MW e um espelho d’água de 1.040 km2. As demais usinas estão no Nordeste, gerenciadas pela Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf). Dos 15 empreendimentos da Chesf, que somam potencial de 10.484 MW, nove estão no Velho Chico, com potência total de 9.976 MW.

As represas construídas para a geração de energia tinham como objetivo ainda evitar enchentes nas cidades ribeirinhas, mas, hoje, apenas armazenam água no período de chuvas para garantir a navegabilidade durante a seca. Mas em 2001, por exemplo, a embarcação que levou os pesquisadores da Expedição Engenheiro Halfeld precisou atrasar em um mês sua partida de Pirapora. Em pleno racionamento de energia, a vazão do lago teve que ser ainda mais controlada.