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Marcos da primeira produção de ferro em alto-forno na América do Sul, os últimos remanescentes da Real Fábrica de Ferro do Morro do Gaspar Soares, hoje Morro do Pilar, encontram-se em total estado de abandono. Da fábrica, cuja construção foi autorizada pelo príncipe regente Dom João VI há 200 anos, logo após a chegada da Corte Portuguesa ao Brasil, restaram apenas as ruínas de dois pilares do alto-forno. Em 1990, por determinação do ministro das Minas e Energia, Aureliano Chaves (1929/2003), a então estatal Companhia Vale do Rio Doce, atual Vale, implantou no local um monumento em homenagem ao idealizador da fábrica, o Intendente do Distrito Diamantino, Manoel Ferreira da Câmara Bethencourt e Sá (1764/1835), hoje abandonado.
“Recebemos denúncias gravíssimas e já encaminhamos à prefeitura um ofício solicitando providências. Mas, tanto quanto a preservação dos remanescentes da fábrica, o que propomos é o tombamento de toda a área”, afirmou o coordenador da Promotoria Estadual do Patrimônio Cultural e Turístico, Marcos Paulo de Souza Miranda. Segundo a denúncia recebida pela promotoria, o monumento, cuja construção foi projetada para proteger os remanescentes do alto-forno da fábrica, está com a cobertura comprometida por várias partes quebradas e os pisos estragados e sujos. Além disso, o vandalismo é outra ameaça, registrando-se pichações e marcas de canivetes e pregos nos antigos pilares do alto-forno.
“Fábula do ferro”
Pela carta régia do príncipe regente, de outubro de 1808, o Intendente Câmara foi autorizado a deduzir do orçamento anual do Distrito Diamantino, cuja administração era monopólio da Coroa, os recursos necessários para a construção de uma fábrica de ferro na Comarca do Serro Frio. O Intendente acabou escolhendo o Morro do Gaspar Soares para a instalação da fábrica, devido à pureza e à abundância do minério de ferro encontrado na região. Além disso, as matas para a produção de carvão eram abundantes e a localização do morro era também estratégica, às margens do Caminho dos Diamantes da Estrada Real e próxima ao rio Doce, por onde ele projetava escoar o ferro para a Bahia e para o Rio de Janeiro.
As obras de construção da fábrica tiveram início em abril de 1809, mas logo o Intendente se deparou com enormes obstáculos técnicos. A futura fábrica estava localizada a cerca de 150 quilômetros do Arraial do Tejuco, hoje Diamantina; o que dificultava o transporte de materiais para a construção e a sua própria presença no local. Por outro lado, o local escolhido para a fábrica, embora próximo ao rio Picão, não facilitava o fornecimento de água. E a tudo isso se acrescia o fato de que o pequeno povoado do Morro do Gaspar Soares, que fora fundado em 1701 pela bandeira do coronel Antônio Soares Ferreira, não dispunha de mão-de-obra qualificada para os serviços.
A opção do Intendente Câmara pela construção da fábrica de ferro no Morro do Gaspar Soares - assim batizado em homenagem a um dos bandeirantes da expedição de Antônio Soares - acabou também gerando fortes críticas tanto no Arraial do Tejuco quanto no Rio de Janeiro. Na Corte, no Rio, a oposição foi liderada pelo influente Barão de Eschewege e, em Diamantina, pelo lendário mineralogista José Vieira Couto, que denominava o empreendimento do Intendente, sarcasticamente, de “fábula do ferro”.
Te-deum ao ferro
As dificuldades de acesso, Câmara superou com a construção de estradas, uma delas aberta desde o morro até a atual cidade de Congonhas do Norte, de onde foram trazidas, em grandes carros de boi, pedras apropriadas para as construções e moinhos da fábrica. O problema do abastecimento de água, por sua vez, o Intendente só contornaria depois da fábrica em atividades, em 1819, com a construção de dois tanques no rio Picão e de um canal que levava a água até os moinhos - e cujas dimensões impressionaram o naturalista Saint-Hilaire em visita à fábrica naquela época. Já os problemas com a mão-de-obra seriam em parte resolvidos por meio da contratação de trabalhadores europeus especializados na fabricação de ferro.
Depois de muitas tentativas sem sucesso, a primeira “corrida” de ferro do alto-forno da Real Fábrica ocorreu, finalmente, em 15 de outubro de 1815. E para comemorar a vitória o Intendente seguiu para o Tejuco com uma comitiva de 36 cavaleiros e músicos e três carros de boi carregados com 2,7 toneladas de ferro. No dia 21 daquele mês, a comitiva chegou ao Tejuco, onde Câmara decretou três dias de feriado e a realização de Te-deuns, em ação de graças pela chegada do primeiro carregamento de ferro de Morro do Gaspar Soares.
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