12 de julho - Saga das esmeraldas deu origem a Itacambira
Foi a Serra Geral, chamada pelos bandeirantes no século XVIII de Serra Resplandecente, que trouxe Fernão Dias Paes Leme à região onde hoje está localizado o município de Itacambira. O reflexo do sol nas lagoas das montanhas fazia os viajantes que por ali passavam acreditarem que o lugar era abençoado por esmeraldas. Após a comprovação de que as terras, apesar de belas, não guardavam pedras preciosas, o arraial que havia se formado para abrigar os caçadores de esmeralda firmou-se e, com o passar dos anos, deu origem a Itacambira.
A cidade já perdeu muito de seus traços e características originais, no entanto, ainda hoje é possível encontrar relíquias e histórias interessantes, principalmente, no interior da Igreja Matriz de Santo Antônio, datada do século XVIII. Tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG) em 1998, a edificação religiosa mantém cinco imagens e diversos adornos e objetos originais da época de construção.
Feitas em argila, as imagens de Santo Antônio, Nossa Senhora dos Passos, São Sebastião, São Gabriel e Santo Agostinho foram todas restauradas em 1988, segundo relata o zelador, Geraldo Crisóstomo Ferreira Leão. Ainda o altar- mor, em madeira trabalhada, e todo o piso da igreja, em madeira e pedra, não foram modificados, permanecendo em bom estado de conservação. Mas, o teto, que ainda é original, necessita de reparos, já que, por ser antigo e de material frágil, não contém a água das chuvas, provocando goteiras e infiltrações. Também uma cômoda de cerca de um metro de altura e quatro de comprimento e a pia batismal, localizada na entrada da igreja, permanecem com suas características inalteradas.
Uma curiosidade verificada pela equipe da Expedição Jequitinhonha, em sua passagem pela cidade são os ossos humanos depositados no subsolo da Matriz. Apesar de não haver registros de quando os ossos foram colocados no local, Geraldo afirma que eles já estão lá há mais de um século. "Na época da minha avó, os ossos já estavam aqui", relata.
O zelador diz que antigamente existiam mais de 500 crânios embaixo do piso da sacristia e do altar-mor da Igreja. "Dava para ficar em pé lá embaixo e, em cinco minutos, juntar tudo, de tantos que eram", explica. Atualmente, não é possível ver todos os ossos. Isso porque, de acordo com Geraldo, um padre da região mandou soterrá-los.
Ele conta ainda que, até meados do século passado, no mesmo local estavam guardadas quatro "múmias". O que Geraldo chama de múmias, eram corpos com osso e pele que ele afirma terem aparência perfeita. "Alguns tinham até cabelos. Acho que eles passavam um produto para conservar a pele". Na década de 50, foram levados para Montes Claros pelo historiador Simião Ribeiro, relata o zelador.

Itira é testemunha da navegação no Jequitinhonha

Em uma bela paisagem natural, proporcionada pelo encontro dos rios Araçuaí e Jequitinhonha, formou-se o povoado de Barra do Pontal, hoje chamado de Itira. Entreposto comercial no século XVIII, a vila era ponto de parada dos canoeiros que subiam o Jequitinhonha para trocar o querosene e o sal da Bahia por farinha e rapadura da região. Mas, com o passar dos anos, Itira foi perdendo importância para Araçuaí, que se desenvolveu e atualmente é a sede do município.
Uma das versões contadas para explicar esse fato remete à prostituta Luciana Teixeira, que teria fundado Araçuaí. Contam que, por ser um local de comércio, Itira possuía uma população praticamente toda masculina. Com a chegada de Luciana, criou-se um alvoroço tão grande que incomodou o padre da época. Expulsa da vila em 1817, a prostituta migrou de canoa rio acima, levando várias mulheres com ela. Para acompanhá-las, os canoeiros mudaram então o ponto de comércio, abandonando a antiga vila e promovendo o crescimento do novo local, dando origem a Araçuaí. "A história da formação de Araçuaí é mais oral do que documental. Não se sabe ao certo como tudo aconteceu", explica Dostoiewisk Americano do Brasil, funcionário da Secretaria de Cultura do município.
Atualmente, o casario histórico da época colonial é escasso em Itira. Restam poucos sobrados, em péssimo estado de conservação, e a Igreja Senhor da Boa Vida, que vem sendo restaurada desde outubro do ano passado. No estilo colonial mineiro, a edificação religiosa foi modificada por um padre, na década de 70, perdendo duas torres e o piso original.
A obra, financiada pela Prefeitura Municipal de Araçuaí, com acompanhamento técnico do Iepha, já recuperou toda a parte estrutural da igreja, incluindo janelas, portas, telhado e piso. Com os 50 mil reais disponibilizados através do Orçamento Participativo do município, e mais 10 mil conseguidos com doações, a Secretaria de Cultura pretende ainda recolocar o piso em madeira no altar-mor e terminar a restauração de pequenas esculturas localizadas nas pilastras, chamadas de elementos artísticos. (Reportagem de Marina Rattes)
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Matriz guarda porão de ossos

 

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Relíquias do século XVIII

 

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Igreja de Santo Antônio

 

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Foz do Araçuaí

 

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Antigo entreposto comercial

 

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Igreja do Bom Senhor